Festival de Almada <br>– resistir e vencer
O Festival de Teatro de Almada é uma vitória. É uma vitória da nossa Revolução, o grande motor do ideal posto em acção da descentralização e da democratização cultural. É uma vitória dos trabalhadores das artes e da cultura que o conceberam e edificaram. É uma vitória do povo e dos trabalhadores, em particular de Almada, que desde a primeira hora o acarinharam e defenderam, e que, dessa forma, assumiram-se eles próprios, construtores do seu Festival. É uma vitória do Poder Local Democrático, da Câmara Municipal de Almada, desde sempre o principal e mais leal garante da continuidade e crescimento do Festival. Uma vitória da Companhia de Teatro de Almada e das diferentes gerações de fazedores de teatro que por ela foram passando. Uma vitória do Teatro, do Teatro que escolhe como fundamento ético, estético e político da sua acção estar do lado da democratização cultural e não da sua mercantilização. Ou, como diria o seu actual director artístico, Rodrigo Francisco, «o que nos move é acharmos que um Festival não é uma negociata».
Precisamente por se colocar deste lado, numa real e metafórica margem esquerda, o Festival de Almada sempre se fez enquanto movimento de resistência contra a desvalorização e desinvestimento a que a política cultural de direita o foi sempre tentando remeter; e, também por isso, contra a suposta (e anti-democrática) alternativa ao financiamento estatal que seria a «penetração» do negócio cultural – empreendedor e criativo pois claro! – num espaço que sempre foi e tem de continuar a ser de desenvolvimento da cultura integral do indivíduo, um espaço de emancipação, transformação e liberdade.
Em 33 edições nunca o Festival abandonou a sua lógica de Serviço Público segundo a qual, por exemplo, durante muitos anos a assinatura que dá acesso todos os espectáculos permitia aos jovens, através de um preço especial, assistirem a todas as peças do Festival a um valor médio inferior a um euro cada. Isto fora as muitas actividades de acesso gratuito a todos que o Festival sempre programou. Apesar do investimento do Estado ter vindo a decrescer regularmente desde 1996 (só em 2011 ainda com o governo PS/Sócrates o corte foi de 150 mil euros) o Festival mantém no essencial estas características de Serviço Público que nas palavras de Joaquim Benite são expressão do «direito a um cada vez maior enriquecimento cultural, o direito de todos a aceder aos instrumentos do pensamento e da reflexão e ao desenvolvimento da personalidade artística, a par de melhores e mais justas condições materiais de vida».
Muitas histórias há para contar do Festival mas há um momento que não esqueço. Passou-se numa edição da segunda metade dos anos 90 em que foi montado um segundo palco exterior onde havia apresentações mais tardias. Aconteceu no decorrer de uma peça de uma companhia francesa que representava (seria?) As Criadas de Jean Genet. Desde o início da peça vemos um personagem que corta lenha numa das extremidades de cena. O machado era bem forte e rachava troncos com enorme facilidade. Esta imagem permanece mas a sua importância vai-se dissipando à medida que outros acontecimentos vão decorrendo. Às tantas, o homem que cortava lenha vem ao centro do palco e coloca-se de costas para o público. Num gesto colérico – ameaçando outro personagem? – eleva bem alto o machado e neste movimento a aguçada e pesada lâmina solta-se do cabo e voa em direcção à bancada repleta de gente. Calafrio geral... O voo da lâmina entra em câmara lenta, na cara de todos o esgar horrífico da tragédia iminente. Finalmente a lâmina cai no seu destino, no meio do público impossibilitado de fugir. Ouve-se um suspiro coral de alívio seguido de uma nervosa gargalhada geral... A aguçada e pesada lâmina que voou era, afinal, de esponja.